Com o intuito de prosseguir na divulgação de textos e documentos que nos levam ao início do movimento umbandista,  transcrevi na íntegra para esta postagem, um dos oito capítulos do livro de João de Freitas,( Umbanda, 1941 ) que nos traz com grande riqueza de detalhes a experiência de participar de uma sessão de Umbanda no Rio de Janeiro  da década de 30. Os pontos cantados, a euforia típica dos novatos, a sensação de um primeiro transe mediunico, a problemática da fé e do ceticismo dos médiuns , temas muito atuais e pelo visto, como poderão observar, inerentes à religião desde a sua formação.

Boa leitura;

Pedro K.

EM SÃO MATHEUS

O convite partira de um amigo commum, se me não falha a memoria, Lucas, seria o seu nome. O “terreiro” era em São Matheus, e o seu chefe, funccionario da Alfandega.

Muito embora tivesse algo a concluir  na redação, o convite encheu-me de curiosidade porque, na realidade, jamais tinha pizado um authentico “terreiro”.O que eu sabia sobre espiritismo era atravez do evangelho de Kardec, leituras e conferencias. De modo que acceitei incontinenti, e após um opiparo jantar na pensão, partiamos em demanda da nova Mécca.

A viagem fôra feita em um automovel um tanto usado e isso serviu para que a palestra tivesse, de vez em quando, um pouco de hilariedade.

– E o chauffeur, tambem é crente ? – perguntei.

– Se é ! – respondeu o Lucas. – É um medium notavel! Recebe varias entidades, inclusive um preto velho que é um assombro ! Você procure identificar-se tanto quanto possivel e verá cousas maravilhosas…

“Ver cousas maravilhosas” ficou preso a retina de um debutante eu, afoito, conjecturando desordenadamente, libertava-se d’aquelle atavismo e via, em seus olhos, diante de si mesmo, algo novo para dar pasto à sua intelligencia. “Ver cousas maravilhosas” era, agora, para mim, a ribalta multicor a offuscar-me as palpebras; era o panno de bocca a engelhar-se e, delirante sobre mim, aquella immensa e exigente platéa em delirante applauso ou em ensurdecedora vaia; era, afinal, um mundo que surgia mais novo e mais complexo…

Depois de uma viagem estafante de algumas horas por estradas horriveis, aproximamos  do famoso “ terreiro”, cujos  sons de “tan-tans” e “caxambús”, annunciavam que os trabalhos já se tinham iniciados.

Como retardatarios, após descalçarmos os sapatos, fomos “defumados “ convenientemente e saudamos à entrada da porta com os seguintes dizeres, acompanhados de tres pancadas no chão: “ Kaô cabecilhe”. Em seguida fomos introduzidos no recinto e recebemos a benção do chefe espiritual.

Nesse momento, num rythmo extraordinario, entre vozes harmoniosas e regularidade de movimento como a compasso de musica a dansa offerecia um espectaculo maravilhoso de fé e disciplina. Todos cantavam e embalavam o corpo até cairem em transe. E este celebre ponto, que tanto sucesso fez no radio, era cantado com indiscreptivel euthusiasmo:

“Caboclo do Matto

P’ra que come folha…

Din-din-din

Aruanda!…

 

Caboclo ligeiro

que pisa terreiro…

Din-din-din

Aruanda!…”

Não havia bancos e todos tomavam parte nos trabalhos acompanhando o côro, e, aquelles que fossem mediums, caiam em transe e recebiam os seus protectores.

Segundo a explicação de um guia, os pés descalços era uma necessidade em taes reuniões porque os fluidos pesados, oriundos das ruas , difficultam as incorporações.

Quanto ao ponto cantado, em guisa de hymno, actuando pelas vibrações, auxilia extraordinariamente as incorporações das entidades que veem em phalanges.

Nisto, um dos apparelhos em estado de transe, uma linda morena de cabellos negros e luzidios, agitando-se e com a respiração offegante, deu um formidavel salto. Levando a déstra à altura da fronte, após forte pancada no peito, fez uma saudação em grande estilo.

Aproximando-se o cambono, com um charuto aceso, collocou-o à bocca da medium e trocou lingua com a entidade. Em seguida pediu ao “Ogan” que puxasse este ponto, cuja letra e melodia , provoca as culminancias do enthusiasmo:

“Se vens da matta

Oi, que matta é a tua!

Se vens da matta

Oi, que matta é a tua,

Oi, que matta é a tua

A de lá ou a de cá?

Aonde pia a cobra

Aonde canta o sabiá! ”

Ao que a medium, no centro do terreiro, responde com fortes vibrações:

“Eu vim das mattas

Sou da tribu do Cajá

Vim buscá minha phalange

Para me descarregá!…”

A incorporação fôra perfeita. Era um caboclo que baixava pela primeira vez e tivera permissão dos guias para o fazer. Fazia parte , segundo as suas declarações, da phalange guerreira dos caboclos das matas. Pediu “marafa” e, após lhe ser satisfeito o pedido, o chefe do terreiro fez chegar às suas mãos um pedaço de “pemba”, com a qual, rapidamente, desenhou no chão um lindo ponto composto de duas settas entrelaçadas e uma espada, em cada ponta uma estrella. Em seguida, um ponteiro tambem lhe chegou às mãos que, atirado ao ar com incrivel rapidez, caiu precisamente no centro do desenho!

Mereceu, por isso, uma salva de palmas.

O que mais me surprehendeu foi a grande quantidade de “marafa” que a jovem teria injerido quase que de um só folego! A cacimba comportava seguramente meia garrafa de paraty com mel de abelha, e, n’um abrir e fechar d’olhos a jovem o ingeriu todo sem sentir, após os trabalhos, os effeitos desastrosos da embriaguez!

Haviam outros caboclos baixados, dentre os quaes um incorporado na pessoa do nosso amigo que dirigiu o automovel. Era um caboclo da phalange de “Cachoeira”. Bebera tambem regular quantidade de “marafa” e saboreava um “ponche” que o Lucas lho offerecera em signal de gratidão por uma graça alcançada.

Gingando-se todo, com os olhos inteiramente abertos, com a mão esquerda às costas e a direita à altura da fronte, aproxima-se de mim e solta  um grito estridente acompanhado de tres pancadas no chão. Em seguida, virando-se para o cambono, diz:

– Esse, minha cavallo, bom “camuetê”…

Ao que o cambono traduziu:

– Está dizendo que a sua cabeça é bôa e que o senhor é medium tambem.Quando se desenvolver elle irá trabalhar comsigo.

“Esse, má esse, fio de terra minha cavallo, fecha os oio e pensa no pae maior”  .

Obedecendo, isto é, concentrado, com o pensamento isolado, senti a fronte do medium junto a minha e ouvi um ponto cantado, cuja letra me foi fornecida pelo Lucas quando de retorno às nossas residencias.

Eil-a:

“Ou é com Sol,

Ou é com a lua!…

Elle vai girar!…”

E o côro respondia freneticamente:

“Elle vai girar!…”

Em seguida, o “Ogan”:

“Na canjira de Umbanda,

Elle vae girar!…

Oi que gira,

Que gira…

Elle vae girar!…”

Sentindo o corpo estremecer por uma força extranha, tentei reagir, porém, perdendo o controle de mim mesmo, rodopiei nos calcanhares indo cair a uns quatro metros de distancia!

Varios pontos foram entoados e sobre o meu pescoço collocado um collar de contas vegetaes de varias côres e feitio. Em seguida, ordenado pela entidade, o “Ogan” canta este ponto bastante interessante e significativo:

“Aguenta a guia meu filho,

Aguenta a guia meu pae…

Aguenta a guia meu filho,

Filho de Umbanda não cae!…”

Sob o effeito do ponto cantado, supponho, aquela força extranha que me fizera cair, agora exercia um dominio quase que absoluto! Independendo da minha vontade, num salto levantei-me do chão e prorrompi a fallar numa linguagem desconhecida. Senti que algo sobrenatural se envolvia em todas as minhas faculdades sensitivas e receiava, agora, perder o dominio de mim mesmo!

Tal facto, porém, não succedeu. Se a incorporação fôra completa, segundo affirmaram  os guias, positivava-se o que ouvi de Heraldo Menezes sobre a perda do consciente.

E, assim, para que outras entidades baixassem, outros pontos foram entoados, inclusive este:

“Euxóce, eh…

Vem chegando d’Aruanda

Euxóce, eh…

P’ra salvar filhos de Umbanda!…”

Refeito da refrega, suando em bica, notei que tudo aquillo não despertára curiosidade nos presentes, mesmo porque, naquelle momento, em vozes rythmadas, era entoado o “ponto” de “Ogum”:

“Ogum meu Pae,

Ogum-megê!

Oia Ogum tá de ronda

Auê!

Ogum meu Pae,

Ogum-megê!

Oia Ogum tá de ronda

Auê!”

Este ponto, cantado por um côro adestrado e acompanhado por um grupo de tamborileiros eximios, é de uma extraordinaria belleza! Só assistindo-o é que se poderá aquilatar do seu effeito fluidico harmonizante. É preciso cantal-o e sentil-o, sem o que, os effeitos espirituaes perdem o seu valôr.

Afastados por uns instantes do recinto, eu e meu amigo Lucas viemos para fóra afim de trocar impressões.

A noite era linda, e a lua prateada fazia jorrar sobre aquelle ambiente religioso os beijos dulcissimos da paz sonhada pelos homens de bôa vontade. Adrede preparado para tal fim, o “terreiro” fôra construido bem longe da estação. Não havia “gente profana” para censurar esses actos eminentemente religiosos. O que imperava alli era a natureza em todo seu esplendor.  O “terreiro” estava sitiado de uma arborização selvagem que, ao sopro da brisa leve e suave, enriquecia os pulmões da gente com o oxygenio que emanava da relva fresca e dos arbustos seculares. Adeante, uma queda d’água, não menos poetica, convidava, atravez de sussurros perennes, o homem a curvar-se ante os mysterios insondaveis da natureza.

Para um poeta, aquelle espectaculo grandioso seria u’a musa divinal. Seria um galanteio tentador para o cinzel de um artista. Seria, para muitos, a caricia de uma creatura estonteante, maravilhosamente seductora, com a voz deliciosamente feminina e com a boquinha bastante vermelha, cheia de doçuras…

Retornamos ao “terreiro”.

Condizendo com o maravilhoso espectaculo que presenciamos fóra, o “Ogan” como que a querer realçar as nossas emoções, n’um timbre de voz bastante explosivo, canta:

“Olha que belleza,

O clarão da lua!…

Olha que belleza,

O clarão da lua!…”

E o côro, unisono, responde com o mesmo enthusiasmo:

“Euxóce na sua matta,

Samburiquim lá na rua!…”

E, entre o rufar de “tan-tans” e “tamborins” n’uma cadencia maravilhosa, os mediums gingavam embalando o corpo para facilitar a incorporação. A phalange de “ Euxóce”, quando baixa, offerece aos circumstantes, momentos de intensa vibração!. É importante mesmo! Não ha distinção de sexo nem de edade. Todos os mediums incorporados dançam e são portadores de gestos largos e expressão physionomica extremamente sympathica. Póde-se dizer, mesmo, sem receio de errar que essas danças e esses canticos symbolicos são oriundos do dynamismo inconsciente e exprimem as paixões e os sentimentos coloridos de fé que o ser humano não póde prescindir afim de collocar a vida espiritual acima das concepções materialistas.

Vejamos, por exemplo, estes “pontos” e sintamos todo o seu poder psychologico n’um ambiente de devoção onde a harmonia emocional se reveste de um sentimento extraordinario de belleza:

“No seu cavallo branco

Elle vem montado!

De botas e esporas

Muito bem armado!…

 

Vinde, vinde, vinde,

São Jorge, nosso protector!

Vinde, vinde, vinde,

São Jorge, nosso salvador!…”

 

“Beira-mar, eh, eh!…

Beira-mar…

Beira-mar…

Quem está de ronda é militar!

Ogum já jurou bandeira,

Na ponte de Maitá!…

Ogum já venceu demanda,

Vamos todos saravá!…”

Sob essas emoções, o ser humano tem que se libertar dos impulsos que o acorrenta à vida material, E a dôr, como por encanto, se transforma em emoções de prazer!

A segunda parte dos trabalhos teve inicio às 2 horas da madrugada e, como praxe, era dedicada aos pretos velhos. A primeira fôra iniciada às 10 horas da noite e só baixaram caboclos. Após uma ligeira prelecção do chefe do terreiro é pedido concentração absoluta e é entoado o seguinte ponto:

“Oxalá, meu pae!

Tem pena de nós, tem dó…

A volta do mundo é grande

Seu poder inda é maior!…”

Depois, n’uma melodia inebriante:

“Quem piza na linha de congo,

É congo, é congo aruê!…

Se elle é da linha de congo,

Agora queremos vêr!…”

E as entidades, pertencentes àquella linha, baixando, se identificavam atravez dos seus caractéres.

É grandioso o espectaculo decorrente dessas manifestações, visto que os pretos velhos, quando se incorporam, não escondem as expressões de alegria. E, com os seus gritinhos nervosos e encantadores sorrisos; sambando alegres como passarinhos ávidos de sol em manhãs primaveris; sentados em seus banquinhos e curiando “oti”, acompanhados dos indispensaveis “pitos”, dão graças à “Zambi” e recebem, cada qual, a sua “mucamba”.

Panno branco ou vermelho à cabeça, cajado à mão, cestinhos de palha ou pequenos taboleiros, dão uma impressão perfeita de materialização collectiva.

A um canto do terreiro, em guiza de poltrona, um banco tosco com encosto alto e cheio de hieroglyphos era occupado por um enviado de    “ Rei Congo”. Em torno delle o “cambono”, o chefe do terreiro, o “ogan” e uma “samba”. Dando passes nos enfermos, soltando baforadas de fumo sobre a parte affectada e um conselho para cada “fio” de fé, n’uma linguagem simples, cheia de encantadora humildade, elle fazia sentir que a lei Karma é um facto. Mostrava n’uma concepão perfeita em torno dos males praticados por nós, que o progresso não sabendo reprimir os erros da sociedade, incentiva-os, logrando supremacia aos instinctos selvagens primitivos.

E, entre aquella phalange de pretos velhos, onde Pae Chico, Pae Domingo, Pae Miguel, Pae Ambrozio, Pae Quinca e tantos outros, via-se Mãe Maria Conga, Mãe Maria d’Aruanda, Vovó Maria, Vovó Catharina, etc.

Ha um facto interesante narrado por Leal de Souza que valle a pena transcrever porque coincide com o que observamos. Eil-o:

“O caboclo authentico, vindo da matta, atravéz de um aprendizado no espaço, para a Tenda, tem o enthusiasmo intolerante do christão novo, é intransigente como um frade, atira-nos à face os nossos defeitos e até com as nossas attitudes se mette. Ouvindo queixas dos que soffrem as agruras da vida, responde zangado que o espiritismo não é para ajudar ninguem na vida material, e attribue os nossos soffrimentos a erros e faltas que teremos de pagar. Mas em dois ou tres annos de contacto com as miserias amargas da nossa existencia suavisa a sua intransigencia e acaba ajudando materialmente os irmãos carnados, porque se condóe de sua penuria e deseja vel-os contentes e felizes.

O preto, que gemeu no eito sob o bacalháo do feitor, esse não póde vêr lagrima que não chore, e quase sempre sae a desbravar os caminhos dos necessitados, antes que lh’o peçam. O negro da Africa differe um pouco do da Bahia; aquelle, na sua bondade, auxilia a quem póde, porém às vezes, se irrita co os jactanciosos e com os ingratos, mas o da Bahia, em casos semelhantes, enche-se de piedade, pensando nas difficuldades que os máos sentimentos vão levantar na estrada de que os cultiva”.

Murillo de Souza Soares, advogado, escriptor e jornalista, ao fallar sobre esses pretos velhos, assim se exprime:

“Eu amo a humildade dos Pretos Velhos, desses coitados de pelle negra e alma branca, sofredores e amigos da primeira e de todas as horas, que na flôr terrena, durante a escravidão social e da carne eram forçados a occultar as lagrimas quando o chicote do feitor lhes estalava no lombo!”.

Pois o “preto mina” continúa a trabalhar, embora desencarnado, em beneficio d’aquelles que o procuram. Cumprem a sua missão mostrando a sua humildade em toda sua plenitude. E , às vezes, dão-nos provas materiaes que nos deixam absortos!

Estavamos entretidos com Pae Miguel, ouvindo os seus sabios conselhos quando fomos despertados por este ponto que é, sem favôr, uma verdadeira consagração:

“Preto de Mina,

Que vem lá de cima…

Oi, deixa a lingua

De preto fallá!…

Eh! Eh! Eh!

Preto Mina que vem lá d’Angola

Saravá no terreiro de Umbanda

Preto de Mina

Que vem lá de cima

Oi, deixa a lingua

De preto fallá!…”

A minha impressão é que os pretos velhos são os predilectos para consultas. Tanto assim que , apezar de mediuns, quando se faziam livres da entidade, todos iam ao Congá, e, alli, postados, ouviam os conselhos de Pae Thomé, o grande guia responsavel pelos trabalhos espirituaes do terreiro.

Foi precisamente nesse ambiente e nessa mesma occasião que tive uma das maiores provas materiaes.

Pae Miguel estava “arriado” no seu “cavallo”predilecto, o chauffeur Hugo, que nos conduzira ao “terreiro”. Pois, chegando-se a mim, disse com severa convicção:

– Eu vae levá minha cavallo p’ra “oló”, purquê esse mureque não tá prestando…

Ao que um dos mediums atalhou pedindo “má leme” para o ”cavallo”.

Quando Pae Miguel partiu para o espaço avisamos ao Hugo o que succedera, recebendo como resposta uma palavra pouco cortez para a entidade acompanhado de um sorriso como quem duvida!

Hugo era um rapaz de complexão robusta e seu estado de saúde era magnífico. Entretanto, trinta e seis horas depois, lá estava o seu corpo velado por amigos na sua residência, no Encantado! Fôra victimado por doença absolutamente extranha! O medico, porém, diagnosticou “febre amarella”…

Que hajam “charlatães” e “embusteiros”, “mystificadores” ou portadores de “hysterismo frequente” ou cousa parecida, não ponho a menor duvida. Mas o caso de Hugo, foi a mais forte prova colhida por mim.Foi uma revelação atravez de um facto, concreto e positivo!!!

Esses caboclos e pretos velhos, frequentemente, nos dão provas esmagadoras. Elles se preoccupam muito com a felicidade dos filhos de fé, por isso os protejem e estão sempre dando os melhores conselhos, intromettendo-se, até, na vida intima dos mediums.

A falsa humildade dos consulentes não lhes passa desapercebida. Tudo fazem em beneficio daquelles que necessitam de caridade. Quando, porém, o paciente duvida, elles vão mais além, citando factos de caracter intimo para convencel-os de que realmente elles sabem de tudo.

Seria ocioso dizer que a duvida não se verifica sómente nos incredulos. É como um paradoxo verificarmos que a maioria dos mediums, em virtude de phenomenos explicaveis, vacillam criminosamente. Duvidam do seu proximo como duvidam de si mesmos! Chegam até, –  isso é notório – a abandonar o espiritismo porque lhes faltaram provas exuberantes para convencel-os da verdade!!!

Depois… voltam, cabisbaixos, todos humildes, pedindo perdão ás entidades e declarando aos mais intimos que estiveram “apanhando”!…

São como pombas que partiram… mas que voltam, cedo ou tarde, ao pombal!

Antes de deixarmos o terreiro de São Matheus ainda assistimos um espectaculo bastante emocionante. Estava contricto, entre uma phalange de pretos velhos, um ex-medium que alli batera em busca de alivio para seus males. Então o chefe do terreiro puxa este ponto que é acompanhado por todos:

“Vae buscá,

Vae buscá,

Vae buscá!

Saude p’ra esse fio

Lá no Reino de Congá!”

Dentre um pouco era mais uma prova eloquente do poder dos pretos velhos que se fazia sentir n’aquele ambiente! Depois de se contorcer todo, com a respiração offegante, exclama num timbre de voz forte:

“Saravá Zambi! Saravá Oxalá!

Saravá Ogum! Saravá Euxóce!

Saravá Oxum! Saravá Xangô!

Saravá Nanã Barouquê! Saravá!

todo o povo!”

Era um caboclo que trabalhava com aquelle medium e que o abandonára em virtude da sua vida abjecta que desfructava ultimamente. Exprobando com vehemencia a conducta errada do medium, sem pena nem piedade, trouxe à luz factos que muito o desabonava em face dos principios religiosos. Depois, com voz bastante branda, perdoando, fez n’uma linguagem simples uma exhortação magnifica, convidando os mediums à mirarem-se naquelle espelho…

O chefe do terreiro chega-lhe às mãos a pemba e o ponteiro. Este risca o ponto que era composto de uma setta e uma espada entrellaçadas, tres estrellas e duas pequenas cruzes, symbolizando a phalange cruzada de Ogum e Euxóce. Atira para o ar o ponteiro e estre cae bem no centro, confirmando, dest’arte, ser perencente áquella phalange. Pede em seguida ao chefe de terreiro para lhe dar um cambono, sendo escolhido um rapazola que o acceitou incontinente.

Feita a saudação do estilo, recommendou ao cambono para annotar e dar ao “cavallo”, afim de preparar nova guia, o seguinte:

“Um pedaço de flexa.

Um pedaço de espada de São Jorge.

Uma pedra de sal

Um pedaço de pemba

Um pedaço de carvão

Um pedaço de fita encarnada

Um pedaço de fita verde”.

…e, na proxima sessão, prompta a guia, entregal-a para receber confirmação.

Era já tarde, e os affazeres de ambos, eu e o meu amigo Lucas, exigiam a nossa retirada.

Por mim, confesso, ficaria alli até terminar os trabalhos. O meu espirito não se aturdiu nem se estremeceu em devaneios ou phantasias. “Não senti vibrações de folhas seccas caidas ou desprendidas de arvores núas e resequidas pelo crepusculo outonal…”

Bibliografia:

FREITAS,J.Em São Matheus. In:______ . Umbanda em revista:reportagens, entrevistas,commentarios. Rio de Janeiro: (?), 1941. P.31-46.

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