Na postagem Revendo a história do início da Umbanda, de 07 de maio de 2010, fiz o seguinte comentário sobre a provável tenda de Umbanda mais antiga do Rio Grande do Sul:

“Resta, agora, descobrirmos se Otacílio Charão, antes de embarcar para a África, em 1916, frequentava a TENSP [Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade] ou alguma casa de macumba carioca. Se frequentava a primeira, então teríamos que o Centro Espírita Reino de São Jorge, fundado em Rio Grande, RS, em 1926, é outra tenda descendente da TENSP, mostrando uma relação entre as primeiras tendas de Umbanda e a antiguidade da TENSP sobre todas as demais.”

Com essa indagação na cabeça, ressolvi pesquisar mais sobre o assunto, ams como moro bem longe o Rio Grande do Sul e conheço quase ninguém por lá, estava bem difícil encontrar algo a respeito de Otacílio Charão e do Centro Espírita Reino de São Jorge (CERSJ).

Felizmente, por uma dessas agradáveis “coincidências” do destino, pouco tempo depois, no dia 08 de junho de 2010, recebi um comentário na postagem “Um pouco da história da Umbanda – parte 01”, onde o senhor SÍLVIO CRISTOVÃO TORRADA REIS me chamou a atenção por um grave erro que havia cometido lá a respeito do CERSJ.

Graças a esse meu erro e a iniciativa do senhor Sílvio Reis em me corrigir, a quem fico profundamente agradecido, consegui novas informações bem interessantes sobre Otacílio Charão e o Centro Espírita Reino de São Jorge, que compartilho com vocês abaixo.

Otacílio Charão era natural da cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, tendo ingressado, por volta de 1916, na Marinha Mercante.

Em 1926, Otacílio Charão abandona a carreira na Marinha Mercante e retorna ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na cidade de Rio Grande, onde abriu uma fábrica de doces e balas.

Ainda em 1926, Otacílio fundou o Centro Espírita Reino de São Jorge, que é, até o presente momento, a mais antiga tenda de Umbanda fundada no Rio Grande do Sul, tendo sido registrado em cartório em 1932.

É bem provável que Otacílio Charão tenha vindo ao Rio de Janeiro, então capital federal, durante o seu período na Marinha Mercante, mas até agora ainda não consegui provar isso, muito menos que ele tenha frequentado a TENSP, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição, a Tenda Espírita Mirim ou alguma macumba carioca.

Apesar disso, pelas características do Centro Espírita Reino de São Jorge, é provável que ele tenha tido contato com a Tenda Espírita Mirim, mas isso é até o momento pura especulação minha. Vejamos, então, como eram as características do CERSJ.

De sua origem até meados da década de 1970, o CERSJ seguia uma doutrina de Umbanda de Mesa Branca, com as seguintes características:

  • era proibida a utilização de quaisquer instrumentos de percussão;
  • os cantos só podiam ser acompanhados com o bater de palmas e/ou o pé no chão;
  • era autorizada a incorporação de apenas dois Exus, no caso as entidades Exu Tiriri e Exu de Manegum;
  • era proibido o uso de guias ou colares ritualísticos;
  • todos os trabalhos tinham início as 20:00 horas e encerravam-se à meia noite;
  • pessoas separadas ou divorciadas eram proibidas de fazerem parte do quadro de sócios ou de participarem na corrente de trabalhos mediúnicos.

O uniforme adotado pelo CERSJ da sua fundação até meados da década de 1970 era:

  • para os homens: uma camisa branca contendo um distintivo formado por um ponto riscado e o nome do CERSJ logo acima deste; calça branca; cinto branco; meia branca e sapato de pano e flanela feito por alguns membros do CERSJ;
  • para as mulheres: vestido branco contendo um distintivo formado por um ponto riscado e o nome do CERSJ logo acima deste, com decote fechado e comprimento até cinco dedos abaixo do joelho; bombachinha (espécie de calça curta gaúcha) de tergal branco até debaixo do joelho; meia branca; sapato de pano e flanela feito por alguns membros do CERSJ;
  • para os meninos, que só eram permitidos na corrente por motivos de saúde: camisa azul, calça branca, um cordão amarrado na cintura e sapatos iguais ao dos homens;
  • para as meninas, que só eram permitidas na corrente por motivos de saúde: blusa rosa, vestido branco abaixo do joelho, um cordão amarrado na cintura e sapatos iguais ao da corrente, se fossem meninas.

Além dessas características, o senhor Sílvio me informou que o CERSJ possui, desde a sua fundação, uma mensalidade utilizada para cobrir seus gastos, estando isento do pagamento da mesma todos os sócios carentes ou que se encontram em dificuldades financeiras.

No caso da existência de algum sócio nessa condição, era feito um levantamento para descobrir os motivos do fato e, verificada sua autenticidade, os demais sócios eram concitados a ajudar a família necessitada com doações financeiras, de alimentos, roupas e/ou medicamentos.

Em seus primórdios, o CERSJ não possuía uma sede própria para realizar suas reuniões, utilizando, para tal, a residência de um de seus membros a cada final de semana. Essa situação não perdurou por muito tempo, pois ainda em 1926 foi adquirido o imóvel que serve até hoje como sua sede, o qual está situado na Rua General Abreu nº 497, Cidade Nova, Rio Grande, RS.

Na década de 1960, o senhor Jesus Penna Rey doou a construção da atual parte da frente da sede do CERSJ, o qual foi utilizado inicialmente para abrigar uma escola primária que funcionava em convênio com a Prefeitura Municipal da Cidade de Rio Grande, com esta cedendo a professora e aquele, o espaço físico e as carteiras escolares. Tal escola funcionou até a reforma do sistema de ensino municipal.

Até o momento, essas são as informações que conseguimos a respeito do senhor Otacílio Charão e do Centro Espírita Reino de São Jorge, a mais antiga tenda de Umbanda do Rio Grande do Sul, da qual se tem conhecimento. Quem tiver mais informações sobre o CERSJ, por gentileza, deixe um comentário abaixo.

E para não deixar dúvidas, somos profundamente gratos as informações e aos esclarecimentos prestados pelo senhor SÍLVIO CRISTOVÃO TORRADA REIS, que nos possibilitaram escrever essa postagem.

Abraços a todos, Renato Guimarães.

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