Com certeza Leal de Souza é um dos autores mais importantes na história da Umbanda, conhecimento obrigatório para todo umbandista que se interesse pelo movimento e que queira entender um pouco mais a fundo os processos pelo qual passou a religião. O texto que segue na postagem ,”O TERREIRO DA MACUMBA”, capítulo  do livro  gerado pelo seu inquérito feito para o periódico carioca “A NOITE ” – “No Mundo dos Espíritos”- contém o primeiro registro da palavra “Umbanda” associada a um culto ou rito brasileiro presente no Rio de Janeiro, provando a grande importância deste escritor para a história da Umbanda.

Depois de seu segundo livro sobre o assunto, “O espiritismo, a magia e as sete linhas de Umbanda”-1933, agora como dirigente da Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição, a palavra “Umbanda”  só iria surgir novamente no livro de Arthur Ramos  “O Negro na Civilização Brasileira”-1934  e em 1938 e 1941 nos livros de  João de Freitas e Lourenço Braga, como descreve Jota Alves de Oliveira no seu livro “Umbanda cristã e brasileira”-1985:

“Com os livros de João de Freitas e Lourenço Braga, 1938 e 1941, sob os títulos Umbanda, do primeiro, e de Umbanda e Quimbanda, do segundo,nesta fase já a palavra Umbanda começa a popularizar-se.

Arthur Ramos em seu livro O Negro na Civilização Brasileira, publicado em 1934, depois de historiar o tráfico e a vida do negro até a abolição, chega ao capítulo VII, descrevendo: – “A herança cultural do negro brasileiro, religiões e cultos.” E à página 105 cita a palavra Umbanda – de embanda(..)”

Sendo assim, o texto foi transcrito do livro com o máximo de fidelidade para a apreciação dos leitores.

Boa leitura;

Pedro K.

O TERREIRO DA MACUMBA

Sobrecapa-"No mundo dos Espíritos"- Leal de Souza - 1925

Uma luz numa arvore. – Dando agua ao bóde preto.

Tomo no terreiro! Pro baixo, a terra nossa. Pro cima, o grande véo ! Lá, no lado, nossa mão, a Santa Lua ! bradava, entre os seus adeptos, “Pae Quintino”.

E no terreiro, cercado de arvores, entre os blocos de pedra, sob o céo estrellado,  a macumba, na vespera do dia de S. Jorge, iniciava , com um ensaio ruidoso, a festa de Ogun. Alinhados, entre os “filhos” de “Pae Quintino”, no circulo de homens e mulheres que o rodeavam, appareciam, estranhos áquelle meio, junto ao escriptor Nobrega da Cunha, o poeta Murillo Araujo, o desenhista Cornelio Penna e o joven catharinense Bello Wildner.

A ‘ claridade tremula de algumas velas, entre os ruflos de dous tambores e de um pandeiro, sob palmas cadenciadas, ao som monotono de um canto barbaresco, tres rapariga, – olhos dilatados, em fixidez  sem alvo, aos pulos, inconscientes, com o busto tombando para a frente, para os lados, em movimentos bruscos, desconnexos, sacudidos.

Puzeram, entre as dansarinas em transe, uma negrita alta e magra, de tenra edade, com um chapéo masculino, de palha, sobre a gaforinha.

Chamaram um rapaz escuro, de renome entre os ultimos capoeiras cariocas, e, pondo-lhe, amoroso, o braço ao pescoço, “Pae Quintino” arrastou-o ao centro do terreiro, e mudou a letra do canto, substituido, assim,por um côro mais plangente e mais amplo. O capoeira, em poucos minutos cambaleou e, dansando, caia sobre os adeptos, atirava-se de cabeça, sobre as pedras, sendo, então, amparado e detido pelos circumstantes.

Uma das dansarinas rojou-se de bruços, na poeira, com os cabellos desgrenhados, mas, reerguida, continuou em seus volteios bizarros:

– Viva Ogun !

– Viva o general de Umbanda !

– Viva a espada do nosso general !

– Viva o cavallo do nosso general !

Repetiu a macumba estes brados do macumbeiro, e uma creoula sympathica de farfalhante vestido branco, apresentou, com respeito, a “Pae Quintino”, um comprido sabre Comblain. Passando-o a um de seus auxiliares, ordenou o chefe que se collocase o sabre nas mãos do rapaz em crise reputada mediumnica.

Levantando acima da cabeça o braço que empunhava a arma, o capoeira saiu a voltear, em pulos, em saltos, em pinotes, ao recrudescer dos ruflos dos tambores e do pandeiro. De promto, jogou o sabre ao chão e deitou-se de bruços, na terra. Traçou-lhe, então, sobre as costas, “Pae Quintino”, uma cruz aerea, e, fazendo-o levantar-se, repoz-lhe o sabre na mão.

O rapaz, de novo armado, estendeu a mão esquerda à extremidade da lamina, e collocou à maneira de uma canga, sobre o pescoço, a folha cortante de ferro, dando guinchosagudos, estridulos, reiterados. Alçou, de subito, o sabre,  para assental-o sobre a testa, pela empunhadura, onde se enlaçaram os seus dez dedos. Um canto vibrante de estimulo e desafio irrompeu, alto, no terreiro.

Agitada em cadencia de dansa, desprendendo-se da frente de seu portador, a arma riscou um traço no pó, e, fincada na terra, ficou a tremer, emquanto, de joelhos aos pés de “Pae Quintino” , as mãos postas, o capoeira gemia, de modo lancinante, parecendo chorar.

Levantou-se “Pae Quintino”, e, com uma vela, descreveu-lhe um circulo luminoso ao redor do craneo, ao tempo em que fazia vibrar uma campainha. Recobrando-se esse

medium, a moça que trouxera o sabre, dobrou os joelho e alçou, em offerenda, uma tijella cheia dagua, com algumas pedras e duas velas accessas.

Um das dansarinas em transe, toou a tijella e, pondo-a sobre a cabeça, encruzou as mãos sobre as costas, começou a dansar, em movimentos de crescente rapidez. Dando signal para um canto de louvor à Mãe dagua”, “Pae Quintino” entrou, enthusiasmado, na dansa, gyrando em torno do sabre fincado no solo.

Com os cabellos engordurados pelo derretimento das velas, a rapariga parou, perguntando:

– Meu Pae, posso começar o serviço?

– Espera, minha fia, quero conversá, comtigo. Segunda, terça, quarta-feira, quarta-feira de trevas, quarta-feira de endoenças. Quando a Virge via Nossa Senhora na Paixão, dos seus olhos caia uma lagrima na terra, e toda a terra tremia. Tremam assim, meus fios, os nossos inimigos, e fique elles tudo, já, debaixo da planta do meu pé esquerdo. Já, disse, e bateu, no solo, com o pé esquerdo.

A rapariga, então, molhando as mãos na agua da tijella que tinha de boa edade, de bigode louro – não guardara a compostura conveniente, “Pae Quintino” applicou-lhe às palmas das mãos com uma palmatoria, dous fortissimos bolos.

Mudara o motivo do côro. Falava-se, agora, num tronco da floresta, tronco que estava ali, e tinha raizes na Costa da Africa. “Pae Quintino”, enconstando-se a uma grande arvore como se se offertasse para ser amarrado, pediu:

– Quem me dá uma luz ?

Levou-lh’a um dos seus adeptos, mas, surprehendendo-o, o velho macumbeiro, com agilidade de moço, suspendeu-se a um galho, passou para o outro, attingindo aos ramos mais altos. Lá, prendendo a vela entre as folhas, gritou:

– Viva o Céo ! Viva a Terra !

Ardia, na altura, a vela clareando as frondes, e, sem que o vissemos descer, “Pae Quintino” appareceu estirado no chão do terreiro, a gritar:

– Viva a Terra ! Viva o Céo !

Revirou-se em algumas cambalhotas, e, correndo por entre as arvores, annunciava:

– Eu vou me embora !

Reapparecendo no terreiro, perguntou, aos gritos:

– Quem me tirou a minha chave ? Quero abri  a minha prota ! Meus fio, a minha chave ?

– Eu dô a sua chave ! respondeu-çhe um de seus sobrinhos, e mergulhou na sombra das ramagens, correndo.

Quando voltou, trazia, apertada contra o peito, uma tijella, com agua e folhas verdes, e arrastava, pelos chifres, um bode preto. “Pae Quintino” agarrou a tijela, e na bocca do bicho, que o pulso de seu sobrinho abriu, derramou a metade da agua, e bebeu elle proprio a restante.

Já o novo dia raiava, annunciando em longes de aurora. Começaram a dansar um samba, duas a duas, seis mulheres. Soaram, a cadenciar-lhe o sapateio, instrumentos de cordas. Era o fim do início da festa de Ogum !

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