Amigo leitor, não sei se vocês perceberam o impacto que o aúdio que disponibilizamos na postagem “A ligação de Zélio de Moraes e Benjamim Figueiredo” tem para a história da Umbanda. Aquele áudio joga luz sobre fatos ocorridos nas duas primeiras décadas da Umbanda, que nos obrigará a rever tudo o que já foi escrito sobre aquela época. Analisemos os dois primeiros pontos que chamamos a atenção na postagem supracitada.

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A) O NOME DA RELIGIÃO

Com base no que ouvimos no áudio, teríamos que reescrever parte do que já foi escrito sobre os fatos ocorridos nos dias 15 e 16 de novembro de 1908 e adicionar um fato novo, ocorrido em 1909, relativo a mudança no nome da religião.

No diálogo travado entre um dos presentes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas, ocorrido na casa de Zélio no dia 16 de novembro daquele ano, no qual o primeiro indaga o segundo sobre o nome do novo culto, teríamos que reescrever o diálogo para algo do tipo:

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Um dos presentes: “- Qual será o nome desse novo culto?”

Caboclo das Sete Encruzilhadas: “- O novo culto se chamará Alabanda.”

Como era a primeira vez que ouviam esse nome, um deles indagou:

Um dos presentes: “- O que que dizer Alabanda?”

Caboclo das Sete Encruzilhadas: “- Alabanda quer dizer Deus ao nosso lado.”

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Além deste fato, teríamos que acrescer um fato novo sobre o início da Umbanda: a mudança do nome da religião, de Alabanda para Aumbanda, em 1909.

Não sabemos os motivos pelos quais o Caboclo fez tal mudança e talvez nunca saibamos. Vamos continuar buscando registros dos fatos ocorridos naquela época, torcendo para que encontremos algo que explique essa mudança. A teoria mais propalada para esta mudança, a de que a vibração do nome anterior não era boa, tendo sido escolhida um novo nome com uma melhor vibração, não pôde ser comprovada, historicamente falando, até o momento. É, até agora, só uma especulação sobre o assunto. (ERRATA: Zélio deixa claro, entre os minutos 12:25 e 12:50, que o termo Alabanda foi substituído por Aumbanda porque não ficava bem, não soava bem.)

Mas analisemos a forma como se deu a mudança.

Sabemos que o primeiro nome da nova religião, Alabanda, foi uma homenagem feita pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas a Orixá Mallet, que em sua última encarnação havia sido malaio e muçulmano: Alá é um aportuguesamento da expressão árabe al-Lah, cujo significado é “O Deus” e é dessa forma que os muçulmanos referem-se a Deus em suas preces. (ERRATA: a expressão “Sabemos” fica meio forte aqui, é melhor ser substituída por: “Supomos, com razoável nível de certeza,”)

Ao fazer a referida mudança, o Caboclo substituiu Ala por Aum, que, segundo Zélio de Moraes, seria a expressão grega que teria o mesmo significado da expressão árabe.

Sobre a afirmação de Zélio de que Aum significaria “O Deus”, em grego, não encontramos nenhum exemplo nessa língua que corrobore essa afirmação. Entretanto, segunda a senhora Karen Armstrong (ARMSTRONG, Karen. Uma história de Deus: quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo. Tradução Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.), os filósofos gregos da antiguidade se referiam a Deus com a mesma palavra que denominavam a unidade, e que seria traduzido, em português, como Um. Talvez, o fato do nome ter se firmado como Umbanda e não como Aumbanda, tenha sido uma correção posterior feita pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, para adequar o nome da religião àquela tradução. Mas isso já é uma especulação minha.

B) SOBRE A DESCENDÊNCIA DA TENDA ESPÍRITA MIRIM E O SEU FUNDADOR BENJAMIM FIGUEIREDO (DESCENDE DA TENDA ESPÍRITA NOSSA SENHORA DA PIEDADE)

No áudio ouvimos Zélio contar que Benjamim passou a frequentar a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade (TENSP) a tenda de Zélio para que Zélio o desenvolvesse na Aumbanda, e em uma dessas ocasiões, Orixá Mallet, incorporado em Zélio, pegou Benjamim e, após carregá-lo nas costas por meio quilômetro, o atirou no mar, tendo, logo após o fato, dito que Benjamim já estava pronto pra começar a trabalhar com a Umbanda.

Infelizmente, na fita não há o período em que isso teria ocorrido, mas se olharmos a história da Tenda Espírita Mirim (TEM), podemos supor quando isso ocorreu. No antigo site da TEM, que reproduzo parcialmente abaixo, lemos que:

“O Kardecismo veio para o Brasil através da família Figueiredo. Em 1920, esta família realizava sessões de Kardec na Rua Henrique Dias nº 26, na Estação do Rocha, Rio de Janeiro.

No dia 12 de Março de 1920, o Médium Benjamim Gonçalves Figueiredo, teve a primazia de incorporar, pela primeira vez, o Caboclo Mirim, Grande Mestre que veio para nos ensinar a Escola da Vida, que poucos conheciam na época.

Após a sua chegada, O Caboclo Mirim anunciou que aquela seria a última Sessão de Kardec e que as próximas Sessões passariam a ser de Umbanda. Em uma de suas mensagens ele disse que a partir daquele momento a TENDA ESPÍRITA MIRIM seria reconhecida mundialmente e advertia que a mesma seria uma Organização única no gênero em todo o Brasil, cujo método seria adotado por outras Tendas, até mesmo em outros Estados da Federação, o que, mais tarde, teríamos a oportunidade de comprovar.

O Caboclo Mirim, Espírito Missionário, preparou a antena receptiva daquele que seria o intermediário do seu programa, de suas ordens e de suas mensagens, ou seja, o seu Médium, que preservaria a sua missão e que cumpriria, religiosamente, a sua tarefa.

Uma família inteira é convocada para preparar a Tenda Espírita Mirim, para nela, firmar os Postulados da nova Organização. Os chamados ou escolhidos foram: José Nunes de Figueiredo Filho, Judith Gonçalves Figueiredo, Benjamim Gonçalves Figueiredo, Eugênia Gonçalves Figueiredo, Hercílio Latino Gonçalves, Abgail Maria Gonçalves, Davi Latino Gonçalves, Benjamim Franklin Gonçalves, José Fróes e João da Mota Mesquita Filho. Foram 12 como os apóstolos de Jesus! Coincidências!

Aos 13 dias do Mês de Março do ano de 1924 considerou-se fundada a Tenda Espírita Mirim, por ordem do Caboclo Mirim, através do seu jovem Médium, Benjamim Gonçalves Figueiredo.”

(Fonte: TENDA ESPÍRITA MIRIM. Apresentação. Disponível em <http://www.tendaespiritamirim.com.br&gt;. Acesso em 03 set. 2007.)

Perceberam que entre a ordem do Caboclo Mirim e a fundação da TEM existe um período de exatos 4 anos? Perceberam, também, que antes da ordem do Caboclo Mirim, a família de Benjamim não trabalhava com Umbanda, apenas com Espiritismo?

Ora, se:

1 – Benjamim e sua família desconheciam a Umbanda em 1920;

2 – só iniciaram as atividades da TEM (tenda de Umbanda e não de Espiritismo) em 1924;

3 – Zélio nos conta que Benjamim frequentou a TENSP sua tenda para aprender com ele sobre a Umbanda, tendo sido batizado no mar por Orixá Mallet e considerado, então, pronto a trabalhar com a Umbanda;

4 – Pelas regras da TENSP, em seu regimento interno, é Orixá Mallet quem autorizava ou não a matrícula de pessoas como membros da TENSP, bem como considerava aquelas que considerava desenvolvidas a dar passes, consultas, auxiliar trabalhos de desenvolvimento mediúnico e outros que se realizavam na tenda.

Podemos supor que nesses 4 anos, entre 1920 e 1924, Benjamim foi membro da TENSP (ADENDO: ou de uma das tendas fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas), com autorização de Orixá Mallet, tendo sido desenvolvido e considerado pronto por esta entidade a começar a trabalhar com a Umbanda e, só depois disso, é que Benjamim teria fundado a TEM, junto de seus familiares.

Ou seja, embora Renato Ortiz tenha escrito que:

“(…) a umbanda se desenvolve paralelamente em diferentes estados sem que exista, pelo menos de maneira comprovada, uma relação de influências entre os diversos terreiros. Em meados dos anos 20, existe em Niterói a tenda de Zélio de Moraes, o Rio de Janeiro a de Benjamim Figueiredo, e Porto Alegre a de Otacílio Charão.”

(Fonte: Breve nota sobre a umbanda e suas origens. In: Religião e Sociedade. p. 134-137. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986.)

e outros pesquisadores tenham se baseado nele quando escreveram sobre o início da Umbanda, podemos afirmar, comprovado pelo áudio em questão, que há, sim, uma relação da TEM com a TENSP, uma vez que a TEM pode ser considerada mais uma tenda de Umbanda descendente da TENSP.

Talvez, a TEM seja a segunda tenda descendente da TENSP, mas não podemos afirmar isso por enquanto, pois ainda não conseguimos descobrir a data de fundação da Tenda Espírita São Pedro (só sabemos que foi anterior a 04 de março de 1927).

Resta, agora, descobrirmos se Otacílio Charão, antes de embarcar para a África, em 1916, frequentava a TENSP ou alguma casa de macumba carioca. Se frequentava a primeira, então teríamos que o Centro Espírita Reino de São Jorge, fundado em Rio Grande, RS, em 1926, é outra tenda descendente da TENSP, mostrando uma relação entre as primeiras tendas de Umbanda e a antiguidade da TENSP sobre todas as demais.

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Acho que com essas considerações, conseguimos mostrar a você, leitor, a importância daquele áudio.

Um grande abraço a todos, Renato Guimarães.

Orixá Mallet ter sido buscado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas para resolver os casos de demanda contra a tenda
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