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Dos vários artigos sobre as mais diversas manifestações do espiritismo  escritos por Leal de Souza no seu inquérito para o jornal ” A Noite”  durante a década de 1920, este é o que melhor retrata as tão famosas macumbas cariocas  e o conflito que existia, a primeiro contato, entre estas práticas populares de cunho africano com o efervescente kardecismo francês. Nas outras crônicas, vemos já centros espíritas formados por membros de classes mais favorecidas , alguns com manifestações de Caboclos e e de espíritos de negros, casos espantosos de materialização e de cura de obsedados.  Diferente destes, o artigo abaixo mostra algo muito mais popular, mais perto do que praticavam as classes humildes do Rio de Janeiro, e a impressão do primeiro escritor e jornalista de Umbanda.

Preferi , pensando na fidelidade da postagem deste relato antigo, deixar a gramática original do livro.

Espero que gostem,

boa leitura!;

Pedro K.

Espiritismo na Macumba

Pae Quintino, paramentado e com a sua espada de Ogun, em seu canzel, em companhia de seu auxiliar e de uma creança

Do cavallo de S. Jorge à conjura das trevas – Outros aspectos e scenas de feitiçaria.

Iamos, no Engenho Novo, pela rua Araújo Leitão. Sob os nossos pés, arbustos rasteiros, gramas tenras, águas paradas, buracos enganosos. Aos lados, à  espessa vegetação condensando massas de sombras.Era meia noite. Reinava a treva. Cercada de arvores, advínhamos uma casa pelo desenho das portas e janellas, a traços de luz. Um rumor cadende de palmas acompanhando um sussuro melancólico de vozes escapava por entre essas frinchas luminosas. Quando nos aproximamos, abrindo-se uma porta silenciosa em nossa frente, surgiu della um vulto que, após uma breve inspecção, mandou que entrássemos.

Eramos quatro pessoas, pois estavam comnosco um joven paraense de óculos, o senhor Paulo Torres, e o escriptor Carlos Nóbrega, homem de prestigio na “Macumba”. Penetramos um aposento escuro, onde se esboçavam figuras em movimento. Mãos quase invisíveis arrebataram os nossos chapéos. Rolamos, então, para a sala contígua, o “canzel” de “Pae Quintino”, tomado assento, após o seu consentimento, num banco encostado à parede.

Ao fundo, numa espécie de altar, forrado de panno branco, com ornatos vermelhos, imagens diversas, e numerosas, em quadros, e, sobretudo, em estatuetas, representando santos da egreja e talvez ídolos barbarescos; tijellas cheias de água, contendo pedras e cruzes de pão; latas, copos, vidros, um cachimbo, velas accesas em candelabros, um polvarim, garrafas, pacotes de velas, caixas de phosphoros…

Deante do altar, enterramos no chão, encruzando as laminas, uma espadas de dois sabres de Comblain, com as folhas cheias de cruzes de giz; uma estrella de metal; punhaes de varias dimensões; velas ardendo; uma pedra preta, um bloco de vidro branco…Pelas paredes brancas, imagens sagradas e velas bruxoleando em supportes especiaes de madeira. Três bancos encostados ao muro, estavam cheios de gente, ficando, porém, as mulheres de um lado, e os homens do outro.

No meio da sala, sentado numa cadeira, com os rugosos pés nus e a camisa fora das calças, tendo uma vela accesa na mão, um negro de estatura vultuosa, quasi velho, “pae Quintino”, passeava os olhos pelo solo, e tinha, na sua frente, um sabre fincado, um copo, e um santo de gesso enrolado num rosário e pesando sobre dois papeis garatujados.

“Pae Quintino” fez um signal a uma preta, que se ajoelhou aos seus pés e mandou que ela amarrasse aquelles papeis na saia, bateu a palmas e cantou:

­-Oia o nó, Guiomá!

Em côro, os assistentes repetiam: “Oia o nó, Guiomá”.  Os papeis não tinham sido amarrados com segurança e, desprendendo-se da saia, rolaram na poeira. Pedindo uma bengala, Quintino deu duas fortes pancadas na cabeça da mulher, ordenando-lhe que reatasse com cuidado a saia, guardando nella os papeis.

Riscou, a giz, um circulo no chão, e, dentro do circulo, uma cruz, sobre o qual emborcou o Santo. Apanhando um copo, entornou cachaça em quatro pontos diversos, em torno da imagem emborcada; rabiscou deante de nós e nosso companheiros umas figuras cabalísticas, que foram cobertas de pólvora. Apagou as velas que lhe ardiam aos pés e mandou chegar fogo aos desenhos de pólvora, que deflagravam, ao canto, cadenciado a palmas:

-Quema o maus oio ! Quema a má língua !

Era, disseram-nos, um acto preventivo, motivado pela nossa presença de desconhecidos, e destinado a conjurar forças que nos impedissem de fazer mal à “macumba”.

Tomada essa precaução, Quintino traçou uma cruz na palma da mão direita e estendeu-a a um homem que nella poz um pouco de pólvora, logo incendiada. Ao clarão estrondeante, o negro, erguendo-se, fez o circulo da sala , e todos lhe beijaram a mão. Quintino passára a ser o pae Raphael de Ubanda. Chamou a mulher de saia amarrada, e, indicando-lhe a vela que estivera entre seus dedos, determinou:

-Minha fia, enterra esta vela de pavio pra baixo, inté a metade numa valla in que não passa água.

Falou, por momentos, numa língua africana incomprehensivel, sacudiu a cabeça violentamente e abaixou o tronco, a dobrar-se, fazendo, com os lábios: “Burr! burr ! burr ! burr !

-A minha língua é a lingua de Angola, mas eu me experico p’ra os meos fio comprehendê.

Fez uma dissertação confusa sobre o Gênesis, e terminou:

-Mas que há Deus, há! Que há bons esprito, há!  Com a graça de Deus, não temo o inferno e diabo. Com a graça do nosso veio Oxalá eu entro em bataia co o inferno, co diabo, cãs treva e eu sô vencedô na bataia.

Cravou um punhal na parede, apontou para a imagem do Christo, com um sorriso embevecido, e disse:

– O nosso pai véio Oxalá! Viva o nosso veio Oxalá!

Voltando-se para um soldado do Exercito, perguntou:

-Quem é mais veio? Quem é mais premero, tu ou teu pae?

-Meu pae.

-Pois viva o teu pae! E quem veio premero que o premero?

Quem é o maió que ta por cima? É os podê de Deus ! Viva os podê de Deus, meu fio !

Viva o mais maió que ta por cima !

A assembléa repetiu as acclamações, e Raphael continuou:

– Há uma justiça do céo e há uma justiça da terra. È preciso arrespeitá os podê do céo e obedece os podê da terra, porque os home não é ermão, meu fio. Uma muié tem dois fio; um é arto, outro é baixo; um é moreno, o outro é claro; um dá pra deputado, outro dá pra ladrão.Deus fez o mundo dereito, meus fio, mas os home pois o mundo às avessa.

Agora os home é que tem de endireitá o mundo que elles entortaro.

Sentou-se, e pediu o “Santo Gronhonhô”. Alcançaram-lhe numa bandeja, comida pela ferrugem, umas semestes que elle poz na palma da mão e sacudiu no chão, como dados, cantando:

-Minha baráio de mamona !

Os assistentes, em coro, repetiam: “minha baráio de mamona”. Raphael, ou Quintino, chamando uma mulata de enorme cabelleira, fel-a  ajoalhar-se ao seu lado, de face para o altar, e cantou: “Maria, eh !Maria eh !”

Por uns quinze minutos, o coro, batendo palmas, em toada dolente, clamou:

-Maria, eh ! eh ! Maria eh ! eh !

A mulata começou a mover com os hombros em requebros e passou a bater com as mãos espalmadas no chão… A poeira, batida cadentemente subia em nuvens, espalhando-se pelo ar, e a cabelleira da dansarina genuflexa, desprendendo-se, varria o solo e resvalava sobre o fogo das velas. Depois, levantada por dous homens, a mulher, braços caídos, pernas rígidas, a face a apparecer horripillante por entre o véo dos cabellos, ficou a cambalear volteios, dansando sem consciência até o raiar da aurora.

Raphael reatou o sermão, dizendo às mulheres:

-Quando o seu fio chora e faiz a travessura, nunca chama elle de peste nem de diabo, porque as criança, é o nosso anjo da guarda. Mãe que chama o fio de diabo, mette o azar dentro de casa. Quando seu marido for desinfeliz e não podê comprar as coisa, não zanga co elle, minhas fia. Diz: a minha fome é grande, mas o podê de Deus é mais maió.

Aos homens disse Raphael:

-Tudo não póde sê iguá. Tem de havê deferença pra se cumpri as lei de Deus. Se todo os home  fosse rico, quem havera de querê fazê as molasinhas piquena das machina grande? E quem prantava o feijão e o mio? Quem suava no cabo do machado? E quem é que fazia o machado meus fio? Portanto, viva o mais maió que tá por cima e viva o nosso véio Oxalá !

-Viva ! Viva ! bradavam os filhos de Raphael.

Mandou ajoalhar-se ao seu lado uma negrinha joven, de lindas faces, pés descalços, vestido branco, cabellos curtos, e que obedeceu sem alegria. Fez com que lhe tirassem os grampos e cantou:

-Ogum eh ! Ogum eh !

Batendo palmas, os circumstantes romperam a cantar: “Ogum eh ! Ogum eh !”

-Ogum é São Jorge, segredou-nos o nosso collega Nobrega. Repare e verá o espirito incorporar-se à medium.

Sebastiana, este era o nome da rapariga, como a outra, entrou a bater com as mãos no sólo, porém, verificando que ella evitava o transe, Raphael fazendo-a sentar-se sobre os calcanhares, empunhou uma palmatoria, e deu-lhe dois bolos bem puxados. Pediu: “Sangue!” e recebendo um copo de vinho, verteu-o no sólo, dando o restante à medium.

Esta estendeu a mão a um homem que lhe depoz, na palma, uma porção de polvora, a que chegou um phosphoro. Ao estrondo luminoso, Sebastiana, contorcendo-se continuava, mas modificada:

-Percura a minha phalange ! Percura a minha phalange !

De repente, num salto, erguida, a moça, também com as pernas rigidas, com as articulações perras, saiu a voltear, inconscientemente, e tombou de costas, deante do altar.

-Levanta ella !

Levantada por dois homens, Sebastiana continuou a dansa cambaleante, ao canto de:

-Percura a minha corôa !

Com os olhos parados, os maxilares comprimidos, os beiços apertados e escondidos os braços sem governo, respirava em bufidos, quebrava o corpo em corcóvos, batia rudemente com os pés.

-Elles acreditam que ella recebe São Jorge, mas que é o cavalo do Santo, susurrou Nobrega ao nosso ouvido.

Mas, atirando-se de bruços, a bailarina de pernas duras bateu com a fronte na pedra preta e poz os labios no blóco branco de vidro. Reenguida, puzeram-lhe  na mão o grande sobre o riscado de cruzes, cantando o côro:

-Defende a minha corôa !

Ella, ora arrastando o sabre, ora pondo-o no hombro, rodava, rodava, rodava, e de repente, riscando uma cruz no chão, cravou, sobre ella, a arma; e estendeu, para nós, os braços.

-Levante-se, abrace-a ! aconselhou Nobrega.

Obedecemos. Abraçando-nos, Sebastiana bateu com o seio esquerdo em nosso ombro direito, e, após, num movimento rapido, tocou o nosso hombro esquerdo com o seio direito, reproduzindo a scena com os nossos companheiros. Fez um signal a um rapaz indiatico, em mangas de camisa, voltou-se com elle para o altar e, como se o coroasse, poz-lhe a mão na cabeça.

Em seguida, começaram a surgir deante della os que haviam recorrido a “Pae Raphael”, por doenças ou negocios. Sempre inconsciente, pernas endurecidas, a reluzir o suor, a rapariga, quando se lhe aproximava o individuo a ser attendido, tomava as semesntes que nos pareceram dados, e, fechando-as, na mão, batia na sua e na cabeça do outro, alongava o braço em offerenda à imagem de S. Jorge, e jogava as sementes no chão. Davam-lhe, então, uma vela accesa, e a dansar, a moça fazia essa luz girar ao redor de cada uma das pernas, dos braços, da cabeça e da cintura do cliente, apertava-lhe, em seguida, a dextra, e impelia-o, para que se afastasse.

Jogadas, uma vez, em intenção a um moço acaboclado, de boas roupas, as sementes, ao serem examinadas, alarmaram os circumstantes.

Sebastiana deu um pulo, e acicatando as ilhargas com os punhos cerrados, batia com os pés no mesmo logar, como se estivesse correndo. Collocou, depois, a vela na cabeça do paciente, e, largando-a, vimos a luz cair, apagando-se.

A ansiedade geral argumentou. Novo pulo da dansarina que, desta vez, apoiando-se unicamente sobre o pé direito, com a perna esquerda estendida, a cabeça erecta e os braços abertos como azas, dava a impressão de querer voar. Tornando, porém, ao rapaz, refez, com a vela, a experiencia anterior, e, vendo-a apagar-se ao tombar, empunhou o sabre.

-É perigo de vida !- disse-nos o nosso confrade Nobrega.

Sebastiana dansando de pernas rigidas, descreveuum circulo ao redor do moço, olhando com face arrogante, como a encarar inimigos. Com a ponta do sabre, riscou no chão o circulo que percorrera, e, rodilhou-o, em seguida, brandindo a armasobre e entre as nossas cabeças, a desferir pontaços e golpes defensivos. parou, e, levantando o corpo sobre as pontas dos pés voltada para a imagem de S. Jorge, alçou magnificamente o braço e elevou a espada ao tecto. Nesse momento, aquella negrinha descalça, de vestido sujo de pó, com os olhos dilatados, o rosto majestoso, resplandescia de belleza, como um anjo esculpido em ebano. Fincando o sabre no sólo, retomou a vela, e, resoluta, pol-a sobre a cabeçado rapaz. A luz tombou, rolando pelo sólo sem apagar-se.

-Viva a fé ! gritou Raphael.

-Viva a fé ! gritaram mulheres e homens.

Um typo gordo, claro, de fartos bigodes, avançando, apresentou a Sebastiana os pulsos juxtapostos, como se estivessem amarrados. Ella, recolhendo um charuto acceso, que lhe alcançaram, descreveu alguns giros de dansa, a fumar; apertou a mão do gorducho, encheu a boca de fumo, e, curvando-se, fez a fumaça insinuar-se a atravessar as duas palmas unidas, e, com um giz, gravou cruzes nos sapatos, na testa, nas fontes, na nuca e nas mãos do consulente.

Collocando as duas mulheres deante de sua cadeira Pae Raphael, movendo uma vela accesa, recitou uma oração feita de pedaços de outras orações e mandou “accordem”. Sylvia e Sebastiana continuaram a cambalear. Pae Raphael cantou, repetindo-lhe o côro, o canto:

-Andorinha, leva o meu anjo pr’o ceó !

De repente, a mulata estacou, e, levantando a cabelleiracom a mão,olhou em roda, e disparando, saiu do canzel ! A pretinha, porém, não saia do transe. Pae Raphael gritou:

– Levanta o ponto, e o côro mudou:

– O anjo que trouxe, o anjo que leve !

O transe não passára.

– Encruza ella !

Dous homens pegaram Sebastiana pelos braços. Terceiro traçou-lhe, com força, uma cruz na face. Quarto soprou-lhe o rosto.

Como Sylvia, esta, recobrando-se, deitou a correr, desapparecendo no aposento escuro.

Raphael, fazendo approximar-se delle uma cabocla de lisas madeixas, encheu a boca de paraty, e, com os dentes, arrancou uma porção de cabellos à mulher, e, cuspindo-os no chão, resolveu:

– Manda abri uma bananera de S. Tomé e bóta esses cabello dentro, e, annunciou:

-Eu vô m’imbora.

Todos, um a um, deitando-nos de bruços, no pó, beijamos o sólo, entre os pés do bonzo vivo da macumba. E elle, derramando agua no chão e formando um barro, considerou:

– A terra te fez. A terra te abençoe. A terra te coma.

Um a um, todos, mettendo os dedos naquele barro, fizemos, com elle, o signal da cruz, emquanto Raphael cantava:

-Eu vou m’imbóra, fica com Deus e Nossa Senhora.

Virando-se para o altar, offereceu:

-Deus, Espirito Santo, Maria Santissima, eu te offereço esta obrigação, e, ao fim de uma longa reza, acclamou:

– Viva os esprito da medicina. Viva os dotô que já morrêro ha mais de sessenta amnos e tã no céo e tá aqui com nóis tambem !

Tirou os paramentos, pol-os sobre os copos da espada que oscillava no chão, deante do altar e começou a cantar:

– O Zamby me chama. Eu tenho de ir. O Zamby me chamaeu tenho de ir.

De repente, como um cadaver, como todo o peso do seu corpo, caiu de costas, mas foi amparado vigorosamente por seis braços possantes.

Acabára a sessão. Eram quatro horas da madrugada.

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