Aqueles que nos acompanham devem ter lido na postagem As Sete Linhas segundo a Umbanda Branca e Demanda a forma como são agrupados os trabalhadores espirituais dentro da Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Os leitores que nos acompanham podem ver que esses grupos, que ficaram conhecidos como Sete Linhas, guardam algumas características particulares que poderiam assim se resumidas:

  • Linha de Oxalá – cor branco, agrupa os espíritos ligados a trabalhos que envolvam atributos de fé, de amor, de pureza;
  • Linha de Iemanjá – cor azul, agrupa os espíritos ligados a trabalhos que envolvam atributos de cuidados, de piedade;
  • Linha de Ogum – cor vermelha, agrupa os espíritos ligados a trabalhos que envolvam atributos de coragem, de força contra o mal;
  • Linha de Oxóssi – cor verde, agrupa os espíritos ligados a trabalhos que envolvam atributos de amizade, de esperança, de cuidados;
  • Linha de Xangô – cor roxo em sua origem, agrupa os espíritos ligados a trabalhos que envolvam atributos de justiça, de verdade;
  • Linha de Iansã – cor amarela, agrupa os espíritos ligados a trabalhos que envolvam atributos de caridade;
  • Linha das Almas – cor preta, agrupa os espíritos para os quais deve-se ter prudência ao lidar com eles.

Quando eu estava analisando as características dessas Linhas, notei que havia uma enorme semelhança entre as características dessas Linhas e os esmaltes da Heráldica, a ciência da arte que estuda as normas para confecção e interpretação de brasões e escudos de armas. Quem quiser conhecer um pouco mais de onde eu tirei essa ideia, vale uma lida sobre os esmaltes (metais e cores) na Heráldica.

Mas como duas coisas que, a princípio, não possuem quaisquer ligação podem ter tamanha semelhança? Bom, a princípio pode parecer que não tenham relação, mas existem fortes evidências contrárias.

A Heráldica é um tipo de arte que surgiu na Europa durante a idade média e que foi trazida por Portugal durante a colonização. Embora fortemente ligada a Monarquia, a Heráldica ainda é bastante usada no Brasil republicano dos dias de hoje: ela está presente nas nossas bandeiras nacional, estaduais e municipais; no brasão de armas do país, dos estados e municípios; e é usada para confecção dos brasões de nossas Forças Armadas e de suas unidades militares. E é aqui que talvez esteja o ponto em que a Heráldica e a Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas se encontrem.

É interessante que o nome dado para o agrupamento dos trabalhadores espirituais tenha sido Linha. Por que Linha? Por que não círculo? Ou quadrado? Ou mesmo grupo ou agrupamento? A pista que nos leva a uma hipótese está contida na forma como as Linhas são divididas: as Falanges.

Falange era o nome de uma formação retangular da infantaria dos exércitos da antiguidade, surgida na civilização dos sumérios (a mais antiga civilização do mundo com registros históricos conhecidos) e que alcançou seu auge na civilização grega, com Alexandre da Macedônia. Ou seja, falange era uma formação militar, organizada, disciplinada e hierárquica. Se o nome foi empregado na Umbanda como sinônimo para mostrar que essa divisão da Linha era uma estrutura hierárquica, organizada e disciplinada, podemos supor que o nome Linha também teria origem militar e deveria guardar os mesmos atributos. Mas será que Linha era uma estrutura militar?

Entre o século XVI e o XIX, ou seja, durante o período colonial brasileiro, as tropas portuguesas eram constituídas pelo Exército Regular ou de Linha, pelas Milícias e pelas Ordenanças, que eram considerados, respectivamente, tropas de 1ª linha, de 2ª linha e de 3ª linha. Esse esquema acabou sendo mantido no Brasil logo após a sua independência, perdurando durante todo o período imperial. Ou seja, as tropas terrestres durante os períodos colonial e imperial também eram conhecidas como tropas de linha! Ou seja, o nome linha guarda, sim, relação com estrutura militar.

Você, leitor, provavelmente deve estar se perguntando: mas qual a relação entre linha, estrutura militar, e Heráldica? Uma característica das unidades militares é que todas elas possuem, desde a antiguidade, um símbolo que a representa, usualmente estampado em uma bandeira. Esse símbolo adquiriu, durante a idade média, o formato de um brasão, padrão que é usado ainda hoje em grande parte do mundo. E quem define a regra como o brasão é desenhado é a Heráldica.

Existem, então, fortes semelhanças que podem nos levar a supor que existe uma relação entre as Linhas da Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas e a Heráldica brasileira. Mas existe mais uma coisa.

Os primeiros brasões eram extremamente simples e eram preenchidos com apenas um cor. Com o tempo, com o aumento do numero de brasões, passaram-se a associar virtudes a essas cores e os brasões foram tornando-se mais complexos, possuindo duas ou mais cores em sua formação, além de figuras, trazendo, em si, uma mensagem escrita na forma de símbolos. Já viu algo parecido na Umbanda?

Os pontos riscados são símbolos que identificam, entre outras coisas, as Linhas e as Falanges da Umbanda e que trazem, em seus desenhos, uma mensagem escrita na forma de símbolos, exatamente como fazem os brasões nas unidades militares. Podemos, então, supor que os pontos riscados são os brasões que identificam as Linhas e as Falanges da Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Embora não se possa provar que exista uma relação entre a Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas e a Heráldica, existem fortes evidências, como mostrado acima, que ela pode, sim, existir.

Essa hipótese ainda precisa de mais estudos e mais pesquisas para ser comprovada, mas traz algo totalmente novo para o estudo da Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas: talvez ela guarde, em si, mais elementos ligados a formação do povo brasileiro do que apenas a forma perispiritual usada pelos espíritos em suas manifestações mediúnicas.

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