Assunto que dá pano pra manga nas comunidades e nos fóruns de discussão sobre Umbanda, uma vez que são espíritos que possuem grande importância para os rituais magísticos  e,  ao meu ver, porque também são os que mais atraem as pessoas ao seio da magia popular hoje. É fato que o feitiche sobre esse espírito ( vou me ater aqui a escrever sobre o esteriótipo de espírito que leva este nome africano, e não ao deus do panteão usando a mesma linha lógica das minhas postagens anteriores )  é muito grande e que este virou até a arma mais saborosa e eficiente dos umbandistas contra o preconceito social que ainda cabe sobre a religião. O grande problema que percebo,  é que na maioria das vezes,  no ímpeto de desmistificar a figura  do “exu” com patas de bode e chifres de carneiro,  os dirigentes,  principalmente,  acabam se esquecendo do cerne real e inegável do exu na maioria dos trabalhos mediunicos sérios,  e acabam por colocá-los enfim,  num pedestal tanto conceitual quanto ritualistico.  Surge então  a “Exumania” – excelente expressão criada por Claudio Zeus – onde o exu acaba se tornando a peça central dos trabalhos mediunicos,  figura com grande poder inebriante para aqueles que buscam feitichismo,  misticismo e fanatismo religoso.

Como sigo a Umbanda Branca e Demanda, a criada por Zélio e o Caboclo das Sete Encruzilhadas,  não poderia deixar de citar aqui a visão deixada pelo médium sobre o assunto,  em entrevista da jornalista Lilia Ribeiro durante a década de 70:

Pergunta: Sr. Zélio, é sobre o trabalho dos Exús. Existem tendas que dão consultas com Exús em dias especiais além das consultas normais de Pretos Velhos e Caboclos. Como o Sr. vê isso?

Zélio: Eu sei disto, que há muitas tendas que trabalham com Exús, eu não gosto porque é muito fácil se manifestar com Exú, qualquer pessoa médium, um mal médium se manifesta com Exú, basta ter um espírito atrasado; ou também fingindo um espírito, por isso não gosto e fujo disto, na minha tenda não se trabalha com Exú por qualquer motivo.

Pergunta: Mas o Sr. não considera o Exú um espírito trabalhador como todos os outros Orixás?

Zélio: Depois de despertado, porque o Exú é um espírito admitido nas trevas, depois de despertado, que ele dá um passo no caminho da regeneração é fácil ele trabalhar em benefício dos outros. Assim eu acredito no trabalho do Exú.

Pergunta: Não haverá casos em que outros Orixás vibrando em outras linhas não possam resolver de imediato alguns problemas de filhos e, não seria o Exú aí o mais indicado para resolver, por estar mais perto materialmente, por estar mais aceito nos trabalhos materiais?

Zélio: O nosso chefe, “o Caboclo das Sete Encruzilhadas” nos ensinou assim, isto faz 60 anos, que o Exú é um trabalhador. Como na polícia tem soldado, o chefe de polícia não prende, o delegado não prende, quem prende são os soldados, cumprem ordens dos maiorais, então o Exú é um espírito que se encosta na falange, que aproveita para fazer o bem, porque cada passo para o bem que eles fazem vai aumentando a sua luz, de maneira, que é despertado e vai trabalhar, quer dizer, vai pegar, vai seduzir este espírito que está obsedando alguém, então este Exú vai evoluir. É assim que o Caboclo das Sete Encruzilhadas nos ensinava.

Pergunta: De que modo o Exú é um auxiliar e não um empregado do Orixá ou vice-versa?

Zélio: Eu não digo empregado, mas é um espírito que tende a melhorar, então para ele melhorar ele vai fazer a caridade junto com as falanges, correndo em benefício daqueles que estão obsedados ,despertando e ajudando a despertar o espírito para afasta-lo do mal que ele estava fazendo, então ele se torna um auxiliar dos Orixás.

A Umbanda Branca e Demanda nasceu dentro de uma mesa de doutrina espírita. Portanto,  grande parte do  entendimento sobre os seus elementos ritualísticos e metafísicos são muito simples a espelho daquela escola.  Exus ,como bem exemplificado por Leal de Souza em 1933,  são espíritos com baixo grau evolutivo.  O que os diferencia dos demais ao mesmo tempo  que permite a sua manifestação nos rituais de Umbanda,  é o seu conhecimento sobre magia,  manipulação de energia,  que pode ter sido adquirido tanto em vida,  quanto já depois do desencarne.  Possuem portanto,  grau de evolução baixo se em comparação com os espíritos das demais  6 linhas – já que exu se encontra na sétima,  a linha de Santo,  que possui Santo Antônio como patrono – por este motivo,  a sua manifestação na Tensp e nos ritos dirigidos pelo Cab. das Sete Encruzilhadas, sempre ocorreu debaixo de grande respeito e cuidado,  com médiuns, data e local específicos .  Geralmente,  a manifestação de exus se fazia e ainda se faz  somente necessária nas sessões de descarga,  sessões estas fechadas ao público,  pois tem a única finalidade de fragmentar todo e qualquer resquício de energías negativas existentes na Tenda e nos médiuns integrantes .  As consultas não são autorizadas,  pois como bem afirmado logo acima,  é seguido o entendimento que não há o porque de se consultar espíritos que na maioria dos casos possuem o mesmo ou inferior grau de evolução que o consulente.  São os espíritos mais atrasados e mais cegos a se manifestarem na Umbanda. Não há vantagem, pois ainda necessitam de instrução. Mas fica claro,  que exus são cultuados na Umbanda Branca e Demanda sim,  podem fazer suas descargas e trabalhar quando permitido,  mas não dão consultas,  assim como não se faz obrigações para a aproximação ou melhor contato mediunico com esta qualidade de espíritos nos seus respectivos médiuns.

Quero deixar escrito aqui também uma observação pertinente sobre o uso do vocábulo Kimbanda,  que originalmente serve como nomenclatura a um título – o mesmo que curandeiro – e não a um rito.  O rito de Quimbanda,  como consta,  foi difundido logo depois do primeiro congresso de Umbanda do Brasil, em 1941,  com o livro de Lourenço Braga  – “Umbanda Magia Branca,Quimbanda,Magia negra” –  conceito este,  adotado por Tancredo em suas publicações e conseguinte  Matta e Silva,  já tornando peça ritualistica e conceitual em praticamente todas as vertentes.  Lembro que a Umbanda do Cab. das Sete Encruzilhadas sempre cultuou, como mostra o livro de Leal,  a Linha de Santo ou Linha das Almas, ou seja,  sempre possuiu sua forma particular de tratar e  entender o culto a exu.

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